O músico e a escritora.

Eu sinto uma pressão enorme. No decorrer dos últimos anos, sempre eu fui a “profissional” da relação, digamos assim. Sempre tive bons trabalhos, ganhava bem, e o Ande poderia investir na carreira de músico, que todo mundo sabe que não é fácil. Ele tem um outro emprego, “plano B”, mas que não é um super emprego. Nem esperamos que seja, porque ele quer continuar tocando e ganhando dinheiro com isso, o que eu acho bom. Mas dá um medinho. Porque agora eu não tenho mais um bom emprego e meu trabalho, além de ser mãe, é escrever. Um músico e uma escritora. A não ser que o Paul McCartney se case com a JK Rowling, você não vê muitos outros exemplos de pessoas ganhando uma quantidade razoável de dinheiro nessas condições. Tenho medo não de passar dificuldades, porque isso é característica da vida, mas de colocar nosso filho em apuros. Perdermos a casa, sei lá. Esse tipo de pensamento autodestrutivo.

Eu planejo terminar o livro que estou escrevendo atualmente até o meio da primavera, mas está tudo correndo a passos largos, então pode ser que eu me adiante. É que quem escreve sabe que o trabalho maior está na revisão, então não posso fazer festa antecipadamente.

Mas voltamos ao assunto da pressão, porque é como eu me sinto no momento. Nós sempre conversamos a respeito, para tentar ter uma ideia realmente boa que possamos colocar em prática e viver a vida bem, para sempre. Apesar da coisa dos concursos, preciso admitir que, desde a metade da gravidez, não consigo me dedicar de maneira satisfatória. Tenho horror a desculpite, e não é mesmo. É só uma constatação. Talvez eu deva aceitar que não sirvo para passar em concurso público. Ou talvez deva estudar pouco, mas frequentemente, e ir prestando concursos até passar, não importa o tempo que demorar. Mas e até lá?

O livro que eu estou escrevendo é bom. Não falo do ponto de vista egocêntrico e nonsense, mas do ponto de vista do mercado. Não existe um livro como ele, e sei que será publicado pela editora. Levando em conta que eu termine a versão final em outubro… tire cópias, envie para a editora… aguarde o contato em pelo menos uns seis meses… ele poderá ser publicado no meio do ano que vem. Nesse meio-tempo, já posso começar a trabalhar em outro, cuja ideia está em mente. Isso é a visão otimista dos fatos. Pode ser que ele seja totalmente ignorado e, mesmo que aceito, renda poucos trocados. Para ganhar dinheiro escrevendo e vendendo livros, você precisa ter publicado vários, porque tudo vai se somando.

Até lá, precisamos fazer alguma coisa. Já pensamos em montar uma banda para tocar músicas bacanas em formato acústico por aí, duas vezes por semana, que seja. O Paul ficaria com a avó dele e nós ganharíamos um dinheiro ok. Durante o dia, rotina normal. Eu também penso em outras formas de trabalhar, como ter uma loja online com roupas bacanas para bebês. Desde a gravidez eu penso nisso. Roupinhas, itens para os quartos, cortinas, roupa de berço. Mas isso já tem que ser melhor estruturado, envolve abertura de firma, demanda tempo para comprar matéria-prima, tempo para produção, e preciso ser prática: quem vai ficar com o Paul? Vale a pena o investimento $$$ inicial? Não vale a pena reservar o dinheiro para outra alternativa?

Nos últimos dias, tenho estado em um desânimo só. Não vou mentir. Pensei na pós-graduação que eu abri mão há três anos e que hoje me permitiria dar aulas em poucos dias durante a semana, o que seria uma ótima opção. Sempre lembro de um ex-chefe que me dizia: “pensar no que deixamos de fazer é deprimente”, e é mesmo, então evito alimentar esse tipo de lembrança. Mas ela fica aqui, no cantinho obscuro do meu cérebro, junto com tantas outras, me cutucando vez ou outra.

Já escureceu de novo e tudo o que eu consigo fazer é agradecer imensamente por ter passado mais um dia ao lado do nosso filho, com ele saudável, em nossa casa, sem problemas financeiros. Mas não esqueço que isso pode ser diferente em breve, e por isso eu me preocupo. Quero fazer algo – preciso. Uma coisa eu já decidi: não vou deixá-lo em nenhum lugar para que eu possa trabalhar fora enquanto ele não tiver pelo menos a capacidade de falar. Conseguir sempre trabalhar em casa seria o ideal. E então? O que fazer? Ainda estou pensando.

Para o músico e a escritora, posso dizer que a vida não reserva grandes facilidades. Mas a certeza é que, para viver de algo que todo mundo critica e faz o possível para te fazer desistir, a única certeza é que só consegue quem continuou com convicção. Quem não poderia, de forma alguma, fazer outra coisa na vida. Quem respira isso. E assim prosseguimos.

What’s for dinner?

Ontem o Paul tomou as vacinas dos 4 meses. Não teve reação como da outra vez, apesar de ter ficado mais manhoso e chorandinho. Tomou mais leite, acordou mais cedo (6h30) e ainda está querendo colo o tempo todo. Também não teve febre. Ainda bem. Está dormindo mais tarde, provavelmente porque está acordando um tempo depois também. Em vez das 6h ou 7h, está acordando depois das 8h, mas também não dorme antes das 20h. Acho ok. Ele tira uma soneca por volta das 17h, daí acorda, toma o leitinho, damos banho e o colocamos para dormir. Se isso influenciar na qualidade do sono dele, volto para o horário de antes, mas por enquanto está sendo uma boa rotina.

Está muito frio aqui em São Paulo nos últimos dias. Tenho-os passado desse jeito: lendo, cuidando do Paul, escrevendo, cozinhando, vendo filmes e Friends. De noite, antes de dormir, é uma delícia fazer um chá bem quentinho e me aconchegar na cama com meus amores de um lado e a pilha de livros do outro. Acho que a nossa família está completa assim. A ideia de ter outro filho me parece cada vez mais irreal e distante. Acredito que tenhamos encerrado a produção mesmo. One hit wonder. E está bom demais.

P.S. – Terminando de reler esse post eu percebi o quão pretensioso ficou o título! Mas é isso aí, alguém precisa ter ânimo quando tudo e todos parecem estar contra o que você acredita.

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12 Responses to O músico e a escritora.

  1. Thais Aux says:

    Ah, você está escrevendo um livro? Que bacana! Dou um super apoio. Eu também estou começando a escrever um e até queria umas dicas de editoras, você parece conhecer melhor que eu.E talvez, apenas talvez, o dinheiro seja importante nessa hora, mas o Paul tem algo que muitos bebês não têm: um montão de amor. E é isso que vai fazer a diferença lá na frente. Não se apavore, parece difícil mas você e o Ande parecem unidos e tudo vai dar certo! Eu também evito pensar nas coisas que deixei de fazer… e chego à conclusão de que a vida ainda é longa, e ainda há tempo. É isso que eu quero dizer: ainda há muito tempo.Beijão.

  2. Viviane says:

    Estava pensando exatamente nisto hoje…em como se manter trabalhando e continuar a cuidar do baby, até fiz um post no blog de uma coluna nova da revista crescer, sobre mães empreendedoras. Escrever um livro é muito legal, e você escreve bem pacas, então acho que começando você vai sentir o gostinho das suas idéias publicadas, e vai escrever mais e mais…logo logo estará com vários publicados e rendendo uma graninha. E o mais importante de tudo, fazendo o que gosta e sem deixar o Paul sem seu amor por perto. Acho que esta é a maior das preocupações das momys, seja de primeira, de segunda viagem…deixar os filhos para outra pessoa cuidar enquanto trabalham…essa é a questão que ronda minha cabeça também…

  3. lobo says:

    Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho, disse Gandhi, certa vez. E eu particularmente acredito que vc tem que fazer o que gosta a todo custo. A qualidade de vida é outra, vc se torna uma pessoa mais leve e bem resolvida, acho que quando abrimos mão de um sonho morremos um pouco, em casa sou eu com a fotografia e o Beto com a música, não somos rico materialmente, mas somos ricos de espírito e isso não tem preço. Mas aquela idéia da pós é bem legal, tenta semiótica na Puc, ñ é tão caro, nem tanto tempo, e dar aulas é bem legal, pois vc escolhe os horários, não te toma o dia inteiro como outros trabalhos… Qquer hora vou te visitar p conhecer o Paul e te ver…Bjs

  4. Thais says:

    Pois é, Flávia, a pós era essa mesma… acho que conversei sobre isso com você no chá de bebê né? E eu também penso como você, sobre a coisa de matar nossos sonhos e a nós mesmos. A verdade é que quem leva a picada da arte na veia não consegue viver de outra coisa.

  5. Camila says:

    Meu trabalho não tem nada de criativo, sou concursada, mas evito pensar no meu emprego pq qdo eu voltar da licença meu chefe terá se aposentado e eu nao terei mais o meu emprego. Serei relocada para outro lugar, com outras pessoas que não os colegas que estou acostumada e não tenho a mínima idéia do que terei que fazer na minha função. Pensar nisso de "recomeçar " do zero depois de uma licença maternidade me deixa deprimida! Nem gosto de pensar.

  6. Stella says:

    Ah eu tb queria fazer alguma coisa de casa… pq fico até pensando no dia q terei que voltar a trabalhar e deixar uma coisinha fofa em casa… melhor nem pensar…Puxa nesse frio q ta fazendo… dá dó ate de dar banho ne?bjs

  7. Não achei nada pretencioso o título do post, achei poético e por isso vim aqui ler e comentar. Desejo que você consiga realizar seus sonhos e encontrar uma alternativa. Achei tão bonito você dizer que apesar de tudo, de estar chateada estes dias, você tem tudo o que precisa ter e que sua vida está completa. É disso que eu falo, temos que pensar no hoje amiga, curta o hoje e esqueça o que deixou de fazer se não puder fazer mais. O Paul está lindo! Voc~e é uma super mamãe!!! Quero ler o livro hein!!!!

  8. é muito difícil mesmo, até hoje penso em alguma forma de ganhar dinheiro em casa pra não deixar o Lennon com outras pessoas, ou pior, em escolinha….atualmente estamos enfrentando uma super barra $$$, já passou até pela minha cabeça em voltar a trabalhar fora e deixar ele na escolinha mesmo….mas não dá, o coração não deixa, e o pai é super contra tb…então vamos deixar a maré passar.

  9. Juh** says:

    Oi Thais!Olha primeiramente boa sorte no novo livro, que venda muuuito e pode ter certeza que louca por livros como sou terei o maior prazer em comprar um seu.Agora, eu penso que precisamos de dinheiro pra viver claro, mas não tem nada melhor do que a felicidade por poder fazer o que se gosta, seja vc com sua escrita e musica e seu marido com a música. Enquanto estiver dando pra viver, vai levando a vida, o futuro a Deus pertence.Só não desista dos seus sonhos, e não deixe seu marido desistir dos dele.bjocas em vc e no lindo do Paul.

  10. Clarinha says:

    Thais, eu acho que vc deveria continuar tentando os concursos, sim. Se vc sentir que deve, claro. Isso não quer dizer que vc deva abandonar seus sonhos, pelo contrário. Ter um emprego estável pode justamente te ajudar a seguir com outros desejos, sem ter de se preocupar com grana de pagar as contas. Inclusive, muitos artistas, como Vinícius de Moraes, eram servidores públicos! Outra: nem sempre os servidores odeiam ou toleram seus afazeres. Eu, por exemplo, trabalho no MEC e gostava muito do que fazia. Visitei os rincões desse país e aprendi muito mesmo. Até escrevi um livro (institucional, claro) sobre boas práticas educacionais. Como jornalista recém-formada, eu nunca teria essa chance na iniciativa privada. Meu emprego não paga super bem, não, mas paga minhas contas e me permite experimentar muito, ao contrário do que muitos pensam sobre o serviço público. Agora, vou partir pra Indonésia, pq o PEdro, meu namorido, foi removido pra lá. Ele trabalha no Itamaraty como oficial de chancelaria e minha idéia é estudar muito pra tentar mudar de emprego e passar no próximo concurso para o cargo dele. Assim, nós dois ganharíamos trabalhando mundo afora. A gente tá super animados pra morar na Ásia e descobrir um pouco de como é o mundo do lado de lá. Imagina: uma vida de mudanças e desafios permitida por causa de um cargo público!

  11. Di says:

    Thais, tenho o contato de uma pessoa que esta vendendo um CNPJ + dominio de uma loja de produts de bebe, alem dos contatos com os fornecedores. O cara estava pedindo umas 8 pilas, mas acredito que o valor é negociavel.Se te interessar, me avisa que eu te encaminho o cntato por e-mail. A loja e so virtual, você não precisaria ter loja fisica, so um espaço pra, talvez, fazwer algum estoque, e uma forma confiavel de fazer as entregas.Beijos, Paul esta lindo, amei a camisetinha!

  12. Thais Bessa says:

    Firmaram em um baby? Mas fiquei tão curiosa no nome de menina… :)Eu quero voltar a trabalhar, trabalhar de casa a longo prazo não é pra mim. BjosPS: Fiquei pensando em Paul fazendo a trilha sonora de Harry Potter, hahahaha.

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